
Clarice Lispector, no romance Água Viva, nos esclarece:" escrever é a palavra pescando o que não é palavra". Escrever é a possibilidade de quem tem na palavra uma forma de evasão e de (com)partilhar.
Escreve-se para si próprio e, simultaneamente, para o outro. A palavra pesca o dito e quando acontece o entreleçamento entre o dito e o não-dito mergulha-se numa comunhão universal entre escritor e leitor porque fazemos parte do mesmo presente temporal e do mesmo futuro intemporal.
Nós, escritores e leitores, somos seres humanos que partilhamos as dores e as alegrias que o viver e o existir nos impõem. Somos companheiros de uma realidade quotidiana. Mais tarde seremos o pó da História, o pretérito que se cumpriu para o bem e para o mal.
Essa comunhão universal se traduz numa solidariedade umbilical e cósmica porque " escrever a palavra que pesca o que não é palavra" deixa claro que onde está ou tenha estado o Homem é preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade. Afinal, ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade.