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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Coisas do idioma









A propósito de uma conversa no bar, minha amiga, a escritora Sônia Moura, enviou-me um poema de Alice Ruiz:


"Apaixonada


Apaixotudo


Apaixoquase".

 Essas conversas de bar, sempre entre um chope e outro, geram papos de conteúdos brilhantes-filosóficos. Conversando sobre amores idos e vindos, surgiu a poeta Alice Ruiz, entre outros.
A criatividade dos escritores é sempre surpreendente e rica. Esclareço que não sou uma escritora no sentido restrito, sou na verdade, uma escrivinhadora e uma leitora razoável.
Na condição de leitora razoável, leio Alice que neste textículo brincou/brilhou com as categorias gramaticais. Nada  pode ser, conforme o contexto , um substantivo,um advérbio, um pronome indefinido; tudo um pronome indefinido; quase um advérbio.
Dizemos que estamos apaixonada/os, então apaixonamo-nos pelo nada. Está paixão está no sonho, naquilo que fantasiamos do outro. De fato, não é nada.
Apaixonar-se é pelo tudo. Pela rotina, pela mau humor, pelos arrotos, pela meia furada, pelo suor, pelas rabugices e incluir nisso tudo o sonho e a fantasia.
Valeu para pensar em paixões e que tais.
Lembrei-me agora de um poema de Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa, que também usa  o idioma bincando com um sufixo. Diz o poema mais ou menos assim:
" O que há em mim é simplesmente cansaço/ nem disto nem daquilo nem sequer de tudo ou de nada/ (....)/um supremíssimo... íssimo...íssimo...íssimo cansaço".
Conclui que sou issimamente apaixoquase.
Valeu Sônia, valeu Alice e valeu Fernando.
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ólimpíadas vs Olimpíada

Existem algumas expressões que usamos no dia-a-dia e não nos damos conta da pertinência(ou não) delas.Eu mesma digo olimpíadas. Mas li numa coluna publicada em 03/10/09, no jornal O Sul ,esta a nota:

"Olimpíada
A escolha do Rio para sediar os jogos olímpicos de 2016 talvez sirva, pelo menos, para que alguns coleguinhas entendam que o Brasil vai sediar uma olimpíada e, nunca, as olimpíadas".

O autor, o jornalista gaúcho Wanderley Soares, fez observação bastante pertinente. Sem a menor dúvida, o escrito do Wanderley tem lógica, principalmente, pq é dirigida "aos coleguinhas".Tomara que sirva aos profissionais da comunicação.


Em verdade vos digo,o uso do cachimbo faz a boca torta, será que me lembrarei, daqui pra frente, de falar e escrever olimpíada? A nota tem fundamento. O uso do cachimbo também, pelo menos para nós, os simples mortais.


Valeu o toque jornalista!



quarta-feira, 30 de setembro de 2009







O mar, o tempo e leituras


Algumas vezes ao lermos textos diversos nos deparamos com algumas expressões que nos remetem à reminiscências. Não uma saudosista por natureza. Não sei se isso é positivo ou não. Penso que é melhor viver o agora, porém, no agora somos o resultado da poeira do nosso tempo. Foi esta expressão, lida num texto qualquer, que me fez reminesciar. A partir daí, lembrei-me de algumas expressões que marcaram o meu agora.
A primeira delas, foi quando num período conturbado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/FFP-SG, não lembro datas, numa daquelas assembléias típicas das greves, um aluno, que era da Marinha, pediu a palavra e ao microfone disse em alto e bom som: " a nau está sem timoneiro". Sem considerarmos a situação quando isso foi dito, o que li me recordou esse aluno, já um senhor de cabeça e bigode brancos, e essa constatação. De fato, em nossa nau-nave-vida , não sabemos quem é o timoneiro. Por vezes, pensamos que somos nós mesmos, mas com Camões repito: " ledo engano d'alma".
A segunda, foi a crônica Nós, águas e pedras, de Wanderley Soares. Nesta crônica o autor refere-se ao universo feminino e masculino. Se os homens não entendem o universo feminino, as mulheres, apesar de mães de homens, também não endentem o universo masculino. Eu, particularmente, não entendo nem o feminino, nem o masculino. Mas recordei-me de uma expressão daquela crônica: " ... marinheiros, viajores de todos os mares..." E nesta viagem, vamos vivendo este bipolar desentendimento. Amando, desamando, chorando e rindo.


A terceira e última, lembrei-me de uns versos dos poetas e músicos Hermínio Belo de Carvalho e Paulinho da Viola que assim dizem:" não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".



quarta-feira, 23 de setembro de 2009



A expressão mais usada no jornalismo é “eu acho”. Em achando, emitem idéias prosaicas, bizarras e tolas. No caso, do Zelaya ouvi pérolas de quem nunca trabalhou, de fato, em uma embaixada. Todos falam em nome do Brasil. O Brasil não deveria isso, não deveria aquilo. Até uma professora de direito internacional da USP foi chamada para opinar. Evidenciou-se, mais uma vez, a eterna questão teoria vs prática. Ministrar aulas sobre direito internacional é fato teórico, ter um presidente que foi eleito e depois deposto pelo Congresso e pelos militares batendo à porta de Embaixada Brasileira é fato real.


E palram... e palram... neste palavrório jornalístico, fica muito clara a negatividade. Nunca há a predominância de notícias e comentários dos aspectos positivos dos fatos. Só o negativo é evidenciado. Muito“não” pra pouco “sim”. Se prestarmos muita atenção aos noticiários, chegaremos à seguinte conclusão: viver neste planeta é uma droga.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Deus e o Diabo











Gosto de alguns autores portugueses. Miguel Torga, Augusto Abelaira, António Lobo Antunes e por aí vai. Em especial, gosto muito deste poema do José Régio. O que diz esse poema tem muito de mim e de todos que, constantemente, se questionam. Interpretado por Paulo Gracindo, é inesquecível.







Cântico Negro







"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?




Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.




Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...




Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.




Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!




domingo, 6 de setembro de 2009



Pior que a convicção do não, a incerteza do talvez é a tristeza do quase. O jogador que quase ganhou, continua jogando, o estudante que quase passou, continua estudando. O que quase aconteceu, em verdade, não aconteceu nem acontece. Viver pensando no quase é viver no outono. As oportunidades escapam por pensar demais, as chances se perdem pelo medo, as idéias não saem do papel. Mas, existem alguns que dizem/escrevem conteúdos-idéias que nos causam muito prazer e nos obrigam à busca daquilo que julgamos certo. Outros escutam, lêem, compreendem e passam para do pensamento para a realiz(ação). As idéias saem do papel, saem do quase e ganham vida.


Dentre os que pensam e escrevem, destaco, no século XIX, o cubano José Julián Martí y Pérez. Poeta, ensaísta, professor, filósofo e teórico político. Nasceu em 28 de janeiro de 1853, morreu em 19 de maio de 1895.


Durante sua curta vida, Martí saiu de seu ideário político e partiu para a ação. Foi um revolucionário, um lutador pela independência de Cuba da Espanha. Não viveu para ver Cuba liberta dos espanhóis. Em 19 de maio de 1895, Martí foi preso e mutilado pelo exército espanhol e seu corpo foi exibido à população em diferentes partes da Ilha.


Martí defendia a guerra sem ódio. Para ele, a luta só é válida se promover uma profunda transformação no comportamento humano nos aspectos culturai,s políticos, econômicos e sociais. Dizia ele:” quem se sentir ofendido com a ofensa feita a outros homens, quem não sentir na face a queimadura da bofetada dada noutra face, seja qual for a sua cor, não é digno de ser homem”.[1]


Saindo da teoria para a ação, Martí deixou o quase. Tornou-se um símbolo da luta pela independência buscando igualdade social. Em Cuba, inspirou estudantes, entre eles, Fidel Castro.


A revolução cubana, liderada por Fidel, trouxe mudanças profundas, propostas por Martí, no comportamento do povo cubano: autoestima elevada, respeito pela cultura, taxa de analfabetismo próxima a zero, baixo índice de mortalidade infantil, menor número de casos de AIDS per capita no mundo, entre outros. Não se pode negar, também, que o menor número de aparelhos celulares e acesso à Internet, no mundo, estão, também, em Cuba. Mas isso é outra história.








[1] MARTÍ,José. Páginas Escolhidas. Rio de Janeiro. Alba,1940

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Crônica- poesia e prosa no escrever moderno








A questão da crônica e dos gêneros literários sempre foi suscitadora de pesquisa por parte dos teóricos da literatura.


Ao pensarmos em literatura, uma acepção necessária e verossímil nos orienta: a literatura existe “antes da letra”, no duplo sentido:


a) de antes da consciência de sua existência;;


b) antes da criação da palavra escrita.


Nesse (pré)existir, a arte da palavra não concebe e não encerra o entendimento histórico-culturalmente caracterizado sobre a divisão em gêneros literários, nem a dicotomia que se procura detectar entre prosa e verso.


Cumpre ressaltar que a discussão sobre poesia e prosa, que se supõe tenha partido de Aristóteles, nunca encontrou exatamente sua teoria definitiva dada a natureza móvel e imponderável do fato literário.


Os modernos estudiosos dos gêneros estão cientes de que eles formam um sistema particular no interior de cada período e interferem na estrutura do discurso literário, razão por que devem ser estudados indutivamente, a partir de características da obra ou das obras, e não a partir da concepção tríade dos gêneros: lírico, épico e dramático.


Partimos da premissa de que não importa em que gênero se apresenta o texto, importa perceber a natureza humana e o trabalho “artesanal” da palavra, despertadora de emoções e reflexões, sendo a estesia o fim único de qualquer forma de arte. As teorias em geral, e a dos gêneros, em especial, não é senão um meio auxiliar que nos conduz ao conhecimento do literário. O texto é, sobretudo, criação de discurso, a presença do lírico, do épico, do dramático não é excludente, antes se entrelaça; e a linguagem é o elemento norteador quer da criação primeira, quer da leitura, que o re-cria.


Luiz Costa Lima nos orienta nesta re-criação participativa do leitor através das estéticas de recepção e efeito. Segundo ele, “o que é fundamental é a observação de que o discurso literário- e ficcional, em geral, - se distingue dos demais porque, não sendo guiado por uma rede conceitual orientadora de sua decodificação, nem por uma meta pragmática que subordina os enunciados a uma certa meta, exige do leitor sua entrada ativa, através da interpretação que suplementa o esquema trazido pela obra.” ( In A questão dos gêneros, p. 266)


Ligada ao tempo ( chrónos), a crônica terá como eixo um momento. Podemos entender esta forma do escrever como um “flash” dos acontecimentos sejam da história, da política, da economia, dos traços de uma dada cultura.


No início da era cristã, era entendida como uma relação de ocorrências organizada cronologicamente, por conseguinte, a participação direta do cronista não existia.


Na Idade Média, a crônica, assim entendida, atinge seu ponto alto. A partir do século XII, com Fernão Lopes, passou a apresentar uma perspectiva individual restrita ao aspecto histórico. Nessa forma foram denominadas “cronicões” e, mais tarde, história.


A partir do século XIX, passa a apresentar uma linguagem mais elaborada. A visão do cronista se faz mais presente, e um tom poético começa a permear o texto.


Atualmente, a crônica afasta-se da mera reprodução de fatos e se orienta para uma abordagem intimista e reflexiva. O “eu – lírico” penetra nesta escritura e, polimorficamente, faz uso da ironia, do discurso afetivo do monólogo, do diálogo, da confissão visando, na utilização dos recursos estilísticos da língua, à aproximação com a arte literária na busca de uma representação simbólica do imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas.


Resultado de uma longa evolução do processo literário, a prosa poética é produto de um momento em que a linguagem literária, dominada por uma ideologia de formas clássicas, percorre o caminho da zona do silêncio em direção ao processo de desagregação da linguagem sob a forma de um suave rompimento com a estética clássica.


A cidade sempre foi configuração para a literatura. O poeta, desde a Grécia antiga, percebe esse ambiente e faz nascer a poesia lírica, lirismo aqui entendido como uma relação subjetiva com o real. No mundo moderno, é outra vez a cidade que vem dar novos contornos ao modo como o sujeito se relaciona com o mundo subjetivo: agora a onipotência do sujeito heróico, narrador do mundo e das peripécias épicas do homem é substituída pelo mergulho na subjetividade. É uma forma de antenação ideológica, uma vez que a literatura, enriquecendo-se com as demais artes, é oferecida ao homem para que numa ligação entre o real e o imaginário, autores e leitores sintam-se totalmente “antenados” na compreensão do mundo que os (nos) cerca.


Baudelaire[1] reconhece a nova cidade e o homem do povo. Em um artigo intitulado “O pintor da vida moderna” incorpora conceitos estéticos aos novos tempos das metrópoles, desinteressando-se do Belo absoluto para considerar o Belo transitório. .


Existe aí a possibilidade de transformar em poético tudo aquilo que a grande cidade pode oferecer de artificial, de grotesco ao artista abrindo, dessa forma, o caminho para a estética do feio e, ao mesmo tempo, belo, por ser humano.


A poética moderna, incorporada à crônica, nos abre o caminho para a percepção lírica, social e humana resultante de uma integração entre a emoção e o desejo de interpretar o mundo e é responsável pelo nascimento de uma significação que, ao revelar o mundo, revela o sujeito que o considera poeticamente, unindo o emocional ao reflexivo e, refletindo, não se acha só, procura alertar sobre as angústias e alegrias próprias da existência humana.






















[1] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda, 4ª ed. RJ, Nova Fronteira, 1980


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os astros e nós



Astrologia




O estudo dos astros não intenta estabelecer previsões. É preciso ter me mente que uma pessoa nascida no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo lugar não terá, necessariamente, um percurso de vida igual. Fatores de natureza econômica, social e genética interferem na existência humana.


A astrologia é, antes de tudo, um instrumento para o auto-conhecimento (sem hífen ou com? Ó dúvida! Mas não vou consultar. Ó preguiça!) mostrando aspectos da nossa personalidade. São observados os signos, as casas e os planetas. Este conjunto – signos, casas, planetas – é o dado para uma leitura global de nosso mapa astral. Assim, poderemos encontrar caminhos que nos levarão a uma investigação interna das nossas atitudes durante o percurso da nossa existência neste planeta.


O estudo da astrologia é uma das fontes dos diversos meios que o Homem busca para explicar a si mesmo e ao mundo que o cerca.


Toda ciência nasce da especulação metafísica. A existência de estrelas, meteoros, planetas, satélites, astros deu origem ao por quê? E ao para quê? Essas indagações norteiam o procedimento científico, daí surge a astronomia que, enquanto ciência, nega a astrologia. Por outro lado, a astrologia, hodiernamente, ampara-se nos estudos da astronomia. Combina mitologia e astronomia para fornecer ao ser humano mais uma fonte na procura da felicidade e de um ser pleno de paz interior.


Há um número expressivo de pessoas que pagam por um mapa astral como se ele fosse um oráculo, um objeto de previsões. Na realidade, o mapa é um instrumento para o conhecer-se. A partir desse conhecer-se, nós, seres humanos, poderemos nos compreender e aceitar-nos e repensar nossas emoções e atitudes.

Assim eu entendo mapa astral. Aqueles que quiserem interpretá-lo como um meio advinhatório ou divinatório que o façam. O que importa é a ajuda que ele trará.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Encucação



Fico surpresa com essa arruaça que estão promovendo contra o Sarney. Primeiro, ele é um político antigo, logo já comete os vícios da politicagem desde há muito; segundo, todo mundo sabe como se dá a prática política nos dois órgãos do legislativo – Senado e Câmara dos Deputados. É prática da República desde de sua instauração em 1889 (prática também da monarquia). Getúlio Vargas pedia empregos aos seus assessores para seus amigos-afilhados-políticos através de bilhetes. Deixou tudo documentado. Isso é herança social e política.


Entendo que essa “sarneysada” está sendo um jogo da oposição que nunca encontrou tanto espaço na mídia. Por que será hein? Só o Sarney? Qualquer cidadão sabe que a maioria dos nossos senadores está comprometida com tudo de que Sarney é acusado.


Há uma positividade nesta arruaça – as práticas viciosas vêm à tona. Todos as discutem. Fingir surpresa é hipocrisia. Todos os escândalos que surgiram durante os mandatos deste governo foram benéficos para nós, os eleitores. Haverá, a médio prazo, uma reformulação no discurso e práticas políticas.


Continuo encucada. Por que só o Sarney? E a pergunta continua: o Senado serve para quê?



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fascismo ou nazismo?



Até 1970, não se ouvia falar tanto do tráfico de drogas. Eu, pelo menos, não ouvia. Li, recentemente, o livro Carmem de Ruy Castro. Em 1920,30, 40 e 50 a cocaína era vendida nas farmácias. O chique era cheirar cocaína e beber champanhe com éter. Esses eram vícios elitistas, só para ricos. Fumar e beber eram vícios de pobres.


Li, também recentemente, uma entrevista do Eduardo Coutinho ao jornal O Globo. Eduardo foi a Nova York receber prêmios pela sua produção cinematográfica. Ficou profundamente irritado pois é um fumante convicto. Nesta entrevista, ele declara que essa perseguição aos fumantes tem um traço do fascismo.


Surpresa, vejo que em São Paulo, em todo o Estado, foi aprovada a lei que proíbe o fumo em todos os locais fechados e abertos. Nos lugares fechados, eu até, com reservas, concordo. Mais surpresa, ainda, vejo que o Rio de Janeiro pretende seguir os mesmos passos.


Sou obrigada a concordar com Eduardo Coutinho. Isso é puro fascismo, nazismo ou seja que nome se queira dar para tanta proibição.


O cinema americano difundiu o hábito de beber, fumar cigarro, maconha e cheirar cocaína. E agora parte dos Estados Unidos essa campanha contra o cigarro e contra tudo que o cinema propagou. Tudo em nome da saude. Mais, ainda, em nome dos processos milionários que famílias, médicos e advogados impetram contra as empresas produtoras do cigarro.


Todos nós somos dependentes de algo. Há pessoas que são dependentes de pizzas, chocolates, coca-colas, doces, salgados. Comer de mais, comer de menos. Umas são dependentes da palavra não e dizem sempre não suporto isso, não suporto aquilo. Tornam-se escravos do mau humor. Outras são dependentes das conversas sobre mazelas, doenças, dívidas, dores de corno. Tornam-se vítimas da tristeza.

Não acho nenhuma dependência saudável. Conscientemente, sei que “depender” não é um ato voluntário. Nenhum ser humano torna-se um dependente por opção.


O que me assusta é a intransigência da maioria dos não fumantes, principalmente, dos (ex)fumantes. Estes sabem dia, hora, mês, ano quando pararam de fumar. Esquecem o dia, a hora, mês e ano do nascimento dos filhos, do casamento, do primeiro beijo, da primeira transa, do primeiro amor. Mas como não fumam ou pararam, sentem-se mais saudáveis.


Os cheiro do cigarro incomoda, há a alergia. O cheiro da miséria não gera tanto projeto-lei nem causa alergia. Os fumantes pagam impostos para não ver miséria e nem sentir o cheiro.


A fumaça do cigarro cria o fumante passivo. A fumaça produzida por carros queimando óleo não nos torna ferrari, scania vabis ou fusquinha.


A saude só é lembrada, agora, no cigarro. Nos impostos que pagamos, é esquecida por fumantes e não fumantes. O Sr. José Serra instituiu a CPMF - imposto ou taxa a ser destinada à saúde. Foi?


Há uma obsessão pela saúde. Ora não se deve comer ou beber isso, ora se deve comer ou beber aquilo que não se devia. Esta obsessão não deixa de ser uma forma de dependência.

Sou plenamente a favor dos lugares para fumantes e não-fumantes. Não bebo, convivo, porém, com bebantes. É minha escolha. A escolha tem de ser nossa.

Se o cigarro faz mal e mata, tenho certeza que mau humor, chatice, proibições e intolerância também fazem mal e matam mais.

Há programas e remédios que ajudam os fumantes a pararem. Todos caros. Nenhum projeto-lei que torne esses programas e remédios um dever do Estado. Gratuitos jamais serão. São pagos com os nossos impostos.


Pensando bem, nascer também faz mal. Afinal, somos finitos.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Senado serve para quê?



Há um restaurante na Tijuca chamado por nós de Poeirão. Está mais para boteco que para restaurante. O boteco tem um nome até bonito. Poeirão é só para nós, os íntimos da família.


Dono e garçom (o único) não sabem desse apelido carinhoso e que o define tão bem.


É um lugar de comida boa e barata, a poeira dá um tempero no jeito. Frequentado, quase sempre, pelas mesmas pessoas.


Estávamos lá eu e meus amigos Beto Fraga e Célia Conversa vai – conversa vem, Brasília, Sarney pra cá, Sarney pra lá. De repente, Beto pergunta: Para que serve o Senado?


Daí partimos para as análises conjectureais-filosóficas-baristas.


São três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Depois de algumas cervejas, concluímos que o legislativo tem dois órgãos:


1º- a Câmara dos Deputados;


2º - o Senado.


O Executivo envia projetos-lei para a Assembléia Legislativa para serem analisados e ou modificados pelos nossos representantes-deputados. Há também os projetos-lei elaborados pelos deputados na Câmara.


Depois de ampla discussão travada entre os nossos deputados federais, esses projetos-lei vão para o Senado.


No Senado, são novamente analisados e discutidos. Se não são aprovados, voltam para o 1º legislativo ( a câmara). Novamente outra avaliação e as possíveis modificações e/ou negociações são realizadas pela assembléia Após esse vai-e-vem e vem-e-vai, são re-enviados para o Senado -2º órgão, também, legislativo- que os rediscute. Depois de longa e ampla (re)discussão nesta segunda casa, também legislativa reitero. Nesse processo, devemos observar o tempo gasto nos dois órgãos do legislativo. Quando a aprovação finalmente acontece, há o envio para o Executivo que faz o que lhe compete – executa. (?) Ou não acontece nada.


Pareceu-nos aquela brincadeira do ioiô ou jogo de ping-pong. Enquanto jogam de lá para cá, de cá pra lá, nós, contribuintes, estamos pagando salários, moradia, transporte e outras tretas. Tetas também.


Li no blog Bar do Ferreirinha a seguinte sugestão: o Senado deveria ser transformado num puteiro. Pensamos o puteiro é uma casa de trabalho árduo. O prazer é de quem que paga. O dever é de quem recebe.


Nos cargos públicos ocupados pelos nossos eleitos, quem paga ( nós- os contribuintes) não temos prazer e quem recebe (eles - os eleitos) não têm dever. Concluímos que o puteiro é mais sério que o Senado, haja vista os bate-bocas a que temos assistidos na TV.


Chegamos até a ter pena do Sarney. Sabemos que está pra lá de na hora dele ser defenestrado de qualquer cargo pago pelo nosso dinheiro.


Após, mais cervejas, optamos pela a completa defenestração da maioria dos nossos legisladores-senadores.


A pergunta do Beto permanece: pra que serve o Senado? Como não sabemos para que serve, deixamos a pergunta no ar. Apesar do desconhecimento, concluímos que fechar o Senado não implica comprometimento algum ao processo democrático. Aquilo (o Senado), na nossa opinião, não precisa existir. Basta a Câmara dos Deputados, a não ser que alguém consiga nos convencer da finalidade séria do Senado. Representação dos Estados da Federação não nos convence.



quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Blue





Os ingleses têm uma palavra para definir como ela se sente hoje: blue Os mistérios das línguas! Em português, também, há palavras que definem esse estado d’alma – sorumbática, angustiada, tristonha, tediosa, melancólica, mas hoje a palavra certa é blue. She’s blue!


Levanta-se, coloca um cd da Betânia e quer ficar só. Não há pessoas no mundo que, hoje, a afastem do blue! Tem inveja das pessoas que dormem quando se sentem assim indolentes para a vida. Dormem e não pensam! Que mecanismo de defesa saudável! Dormir....dormir... dormir. Não pensar, nem sentir.


Ela está ociosamente escrevinhando nessa máquina para não pensar, não sentir e não chorar. De repente, pasmou-se! Já havia se cansado da Betânia fazia tempo e ei-la de novo na sua existência. Não adianta, choram, ela e a Betânia. Lembra-se de um verso de Camões e conclue que desejar não pensar, não sentir, não chorar são “enganos da alma, ledos e cegos” .[1]


Consola-se. Não está no blue sozinha. Há milhares de humanos, neste planeta, sentindo-se assim agora: todos blues.


Questiona-se onde foi parar aquela mulher batalhadora, trabalhadora, forte, corajosa. esnobe, inteligente, fina culta, sensual ? No blue.


Levanta-se e, cansada de tanto “blue”, tenta resgatar a mulher inteligente, esnobe e o escambau. São necessárias providências para o resgate. Troca o cd da Betânia para o Jazz Ladies. Vai para a dança. E ela dança com a voz e a música das jazistas americanas: Ella, Billie Holiday. Nina Simone. Embarca na Sentimental Journey, no Tea for Two e... merda! Lá está Helen Humes cantando I’m blue, na canção If I Could Be With You. Lá se foi a primeira tentativa do resgate. Volta ao blue. Volta à máquina para escrevinhar.


Ainda “bluseada” e embalada pelo som das ladies do jazz, pensa: os xenófobos que mudem seus conceitos! A boa música não tem pátria. Está na hora de abrir o coração e a mente para todas as línguas existentes no mundo, para o (des) amor, para a (des) esperança, (des) para a solidão em qualquer idioma, para todos os homens e mulheres solitários e solidários.


Resolve, então, partir para a terapia ocupacional. Lavar louça, arrumar armários, varrer casa, mudar móveis e enfeites de lugar, banhar-se, passar creme na cara, perfumar-se.


E volta ao blue!








[1] Os Lusíadas, canto II, estrofe 120(adaptação)

Os homens







Todos os homens, todos os beijos, todas as formas do amar, do falar, do calar,


do escutar sem ouvir.


Teus pêlos na cara, teus pêlos nas orelhas, teus pêlos no nariz, tua garganta, teus pomos de adão.


Teus cheiros, teu suor acre, tua colônia.


Teus olhos com um quê de sedução, de carinho, de carência. Teus olhos que inquirem, teus olhos que desnudam, teus olhos que dizem, mas jamais se comprometem.


Tuas ex-mulheres, tuas mulheres, a tua mulher.


Tua voz ora suave num olá, ora num descuidado oi, ora melancólica, ora seca num tá certo apressado.


Teus ternos, tuas camisas, tuas roupas jogadas em cadeiras, tua toalha molhada e largada pelos cantos do amor, pelos cantos do silêncio.


Tua pressa em chegar, tua pressa em sair, teus cenhos vincados, tua preocupação com o sem solução.


Todos os homens foram enganados, todos enganam, todos se enganam. Todos têm medo.


Conheci alguns. Amei o primeiro. Amo o último. Entre o primeiro e o último, alguns passaram. Não os recordo. Foram olhares rasos, carícias mecânicas, toques sem emoção, idéias sem cumplicidade.


Nunca aprendi a cozinhar. Nunca aprendi a calar, a obedecer, a fingir.


Estava ocupada em amá-los, ocupada em ser eu mesma e amá-los.


Aprendi a ser homem e ser mulher para seduzir, para amar e ser amada, para respeitar e ser respeitada.


Alguns me deram ordens, outros me deram afeto. Alguns eram bons no sexo, porém não eram bons nos pequenos detalhes do cotidiano. Outros eram bons nos pequenos detalhes do cotidiano, porém não eram bons no sexo.


Entre esses poréns, aprendemos nossos limites. Aprendemos o medo, a carência, o carinho mutante. Este aprendizado me sustentou e me sustenta na existência.


Homem, tu me alimentas na matéria, na razão e na emoção.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mudanças - para o Flávio.

Sempre achamos que sexta-feira é dia de balanço. De limpar a casa, dar uma remexida nos móveis, arrumar algumas gavetas, acender vários incensos e deixar que estes pequenos rituais se encarreguem de anunciar o final de semana.

Pegamos, findo o ritual, um livro para ler. Se a leitura é interessante nela nos fixamos. Porém, de quando em vez, nos pomos a pensar. E nos vêm à mente as amigas e amigos que compartilham comigo suas histórias. São histórias, também, minhas .


Contamos as separações doídas de companheiros/as de muitos anos ou de casamentos cobertos de pó, falamos de cansaço, de mães doentes, de pais agora carentes e frágeis, da constante preocupação com filhos. Falamos da dor, da perda e das saudades. Sentimos saudades do amor, da falta de alguma coisa. Há sempre um tumulto no peito. Uma urgência na alma. Algo de novo precisa acontecer.


Em geral, costumamos pensar na adolescência como O grande momento de crise, de metamorfose. E, sem dúvida, passar de jovem para adulto, é uma mudança e tanto.


Minha percepção, ao longo da vida, é que as marcas de quilometragem numa estrada estão espalhadas em muitos turning points, como dizem os ingleses naquela sua língua tão sintética. Existem pontos da nossa trajetória em que nós precisamos (re)pensar e mudar para continuar dançando com a vida.


Crescer, envelhecer, preparar-se para morrer são apenas alguns destes pontos. Vivemos uma espécie de hiato, um “entre parênteses”, separando aquilo que vivemos até agora e o futuro que precisamos parir de nós. Nossa incoerência é pensarmos que podemos controlar o futuro.


Tentemos nos lembrar de todas as histórias de herois e de heroínas que lemos. Elas começam sempre da mesma forma. Lá está o personagem principal vivendo sua vidinha, sequer está consciente da grande aventura que vai viver. Está, contudo, cheio de um vago mal-estar causado pela mesmice. Assim como nos livros, estamos nós, personagens da nossa própria história, cansados das nossas estradas rotineiras. E é exatamente aí que acontece o INESPERADO.


De repente, como se fosse um mero acaso, acontece um erro, um mal-entendido, um “algo” que vai mudar os rumos da nossa história . Parece-me que Eva quando aceitou a maçã da Serpente, ousou por todos nós o mergulho na grande aventura humana.


O INESPERADO altera o horizonte familiar. Agora, temos de lidar com forças desconhecidas, mas que nos conduzirá ao “despertar do eu”. O final feliz das histórias, na verdade, é um “enfim sós” com o “você mesmo”. Nós e nossa alma estamos, finalmente, afinados.


É evidente que o caminho da aventura não tem nada de fácil, ao contrário, é muito duro. O conselho dos sábios nos Upanishades hindus nos alerta: Acorda, levanta, pois o caminho é como a lâmina de uma navalha afiada, difícil de atravessar”.


É triste imaginar que cada um de nós pode estar sendo chamado para viver o seu destino, o seu INESPERADO agora mesmo. E, por vezes, não percebemos este chamado, ou se o percebemos, por medo ou acomodação, preferimos ignorá-lo


Precisamos estar atentos quando sentimos a urgência da mudança. Quando nos pegamos pensando: “algo de novo precisa acontecer”, “preciso mudar de vida”, “quero começar uma nova fase”. É necessário que fiquemos atentos aos sinais, aos avisos do acaso. Sei e todos nós sabemos que isso é fácil de falar e escrever. O difícil é aprender a abrir a alma para a percepção destes sinais. Sei, todavia, que só assim estaremos preparados a aceitar, sem medo, o convite do destino. Só assim poderemos abrir os braços para a aventura do viver.


Em verdade vos digo não sei como fazer, mas estou tentando.






















As nuvens correm apressadas pelo céu azul. São levadas pelo vento em desafio ao tempo.



E assim corremos nós atrás dos dias, numa dança ligeira, volteante, solta, em busca de emoções, de alegrias, de paz, de sorrisos, de soluções.



Nós humanos, somos conduzidos, como nuvens num balé, por nossos sonhos, nossas fantasias, nossa intuição e nossa coragem. Percorrendo o tempo cósmico e cármico e procuramos traçar o nosso caminho com fé, harmonia, sabedoria e paz.



Nem sempre isso é possível, assim nutrimo-nos, ou pelo menos tentamos nos nutrir, de coragem para os momentos tristes.



Difícil é perceber a sabedoria para os momentos alegres.











As nuvens correm apressadas pelo céu azul. São levadas pelo vento em desafio ao tempo.


E assim corremos nós atrás dos dias, numa dança ligeira, volteante, solta, em busca de emoções, de alegrias, de paz, de sorrisos, de soluções.


Nós humanos, somos conduzidos, como nuvens num balé, por nossos sonhos, nossas fantasias, nossa intuição e nossa coragem. Percorrendo o tempo cósmico e cármico e procuramos traçar o nosso caminho com fé, harmonia, sabedoria e paz.


Nem sempre isso é possível, assim nutrimo-nos, ou pelo menos tentamos nos nutrir, de coragem para os momentos tristes.


Difícil é perceber a sabedoria para os momentos alegres.



sexta-feira, 24 de julho de 2009

O Mar, Mensagem e Fernando Pessoa




Dentre todas as formas de arte, a literatura é a que mais me fascina. A arquitetura e a pintura têm cores e formas, a dança tem movimento, a música tem graves, agudos. A arte da palavra exige, inicial e simplesmente, letras – e, a partir delas, formam-se os movimentos, as cores, os sons, enfim, os signos e os símbolos

Ao lermos, revemos nossa tentação de sermos poetas, escritores. A cada vez que lemos e relemos, recriamos o texto e tornamo-nos, também, parceiros do autor. Essa simbiose entre autor e leitor possibilita leituras diferenciadas. Não deixa de ser um trabalho de criação.

Reli Mensagem, para navegar, ler, entender e apreciar o texto pessoano, devemos pensar e repensar o espaço água na obra deste escritor e considerar as três letras básicas desta Mensagem poética/narrativa: MAR – AMAR – MA

Essa tríade compõe o universo histórico-umbilical da cultura portuguesa.

Os reinos da Península Ibérica formam, hoje, a Espanha; o pequeno condado é hoje a nação portuguesa, com traços culturais diferenciados. As diferenças nasceram da força do amor, talvez ufano, pela terra, pelos hábitos, pelo folclore. A cultura portuguesa é marcada pela determinação, pela teimosia, pela paixão e pelo gosto pela aventtura.
Como crescer economicamente, estando sempre em guerra com os outros Reinos, como o verdadeiro Reino de Portugal? Qual seria a saída? A fronteira terrestre, inóspita; à sua frente, o mar: fonte de liberdade e esperança. Para manter a terra seria preciso abandoná-la. Saída? O mar. É preciso conquistá-lo. Sobretudo, amá-lo. Nessa conquista há sofrimento, alegria, ódio, amor. E, dessa relação antitética, nasce o “amar o mar”.

Não é sem razão a frase dos antigos navegadores portugueses: “navegar é preciso, viver não é preciso”. O mar deu à língua portuguesa a palavra saudade – e à cultura portuguesa o traço melancólico de sua arte. A leitura, aquela com “olhos de ler”, e a compreensão plena de autores portugueses só é possível a partir do entendimento do signo “amarmaramar”.

Fernando Pessoa toma para si o espírito daquela frase – palavras de pórtico – diz: “viver não é preciso, criar é preciso”. E podemos, na sua obra, perceber vivência íntima da poesia e a luta por uma tradição verbal dela.

Em seu poema “Mensagem através do Mar Portuguez e do Monstrengo”, a referência ao mar se faz presente:
Arroio, esse cantar, jovem e puro,/ Busca o oceano por achar:/ E a falla dos pinhais, marulho obscuro,/ é o som presente d’esse mar futuro,/ É a voz da terra anciando pelo mar”. (In Mensagem, Primeira Parte/ Brasão – Sexto / D. Diniz)
Como um bruxo da palavra, Fernando Pessoa reitera a visão da importância do mar na tradição portuguesa.
No fragmento acima, a associação terra/mar; presente/ futuro mostra a semente e a reflexão históricas da presença da água na alma da nação portuguesa, como marca de seu fado – uma constatação mítica deste destino: o futuro, por se achar fora da terra, está, paradoxalmente, no retorno a ela. É preciso sair para voltar – e a nação, de espaço geográfico pequeno, tornar-se-á grandiosa.
Se pensarmos em Fernando Pessoa como um ocultista e que a sua verdade absoluta chega até nós por certos condutos, que são os símbolos, as figuras míticas, as fórmulas ritualísticas, as palavras sagradas: mar, nau, marulho, oceano – intuem a essencialidade desse elemento na previsão futura desta grande/pequena nação. E predizendo:

"Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra toda fosse uma.

Que o mar unisse, já não separasse.
Que o mar com fim será grego ou romano;
O mar sem fim é portuguez”. (In Mensagem, Segunda Parte/Mar Portuguez)
O poeta procede como um intérprete de símbolos que, além dos dotes de simpatia, intuição, inteligência e compreensão, arrogou-se o direito de prever o auxílio da “iluminação superior”, tomando a mão do superior e do incógnito para profetizar e vaticinar sobre a relação homem/mar/destino.
A presença da história marítima em Mensagem é elevada a um plano mítico, através do qual o poeta intenta recompor o passado histórico por meio do traçado de uma outra história espiritual e transcendente, para mostrar a capacidade da força humana em vencer os perigos que o mar apresenta para revalorizar o destemor do homem:
O Monstrengo que está no fim do mar
Voou trez vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo
De quem são as velas onde me roço?
De quem são as quilhas que vejo e ouço?
Disse o monstrengo, e rodou três vezes.”
O homem do leme tremeu e disse,
El-Rei D.João Segundo!
Sou um povo que quere o mar que é”.
Assim sendo, o ocultismo assume forma para dizer, indiretamente, da ligação irremediável do destino português ao mar. É, sobretudo, o modo de ser dessa tragicidade, a se cumprir para a grandeza ou pequenez da nação. Cada um de nós possui um lugar que podemos identificar como um domínio reservado e maravilhoso onde habitam os seres mais amados. Esse domínio reservado é o mar, fonte de perigo e aventura, desafio que sempre estará presente para testar o poder do Homem, tornando evidente a relação bipolar – razão X emoção – humana. Em Fernando Pessoa, esse é o “domínio reservado” para evidenciar o “cumprir-se Portugal”.
O espaço água é instável, macio; ao mesmo tempo, sólido; e gera a vontade de desafiar o imponderável. O mistério e o fascínio da água exercem no ser humano esse constante buscar desvendar e conquistar essa maciez e solidez, fonte de inspiração, angústia, apogeu – e derrota do Homem.
Nós, leitores-(re)criadores, percebemos que o fascínio pela água é cultivado desde a Antigüidade Clássica, com Ulisses, de Homero, até a época hodierna – e nos permitimos exemplificar, com Wanderley Soares, jornalista e cronista contemporâneo que, dentre os criadores da arte da palavra, simbolista - semiótico, refere-se à magia contagiante exercida pelo mar nos seres humanos, na crônica inédita Nós, Águas e Pedras traduz, metaforicamente, as emoções que vêm à tona diante do esplendor indefinível do mar:
“... das águas ruidosas, frementes dos oceanos, não são velados os perigos, as correntes, seus instintos invasores, não são ocultas as baías, as áreas de calmarias, suas ressacas, seus romances obscenos com os rochedos. Mas marinheiros viajores de todos os mares, sabem que nada é definitivo nos códigos dessas águas que parecem tão francas, tão reveladoras. Elas têm os mesmos cúmplices, os mesmos amantes das águas mansas, que são os ventos que se vão e retornam em horas não marcadas...”. (Nós, Águas e Pedras faz parte do 2º livro do autor. Ainda em elaboração para publicação).
Fernando Pessoa, navegando pelo Mar Portuguez, nos mostra que esse mistério “das águas frementes” fascina, amedronta e, eternamente, desafia o imaginário humano. O mar de Pessoa não é só o português, é o mar do planeta. Do nosso planeta-água.